sábado, 4 de junho de 2011

História periódica

Perigo para alguns homens. Ouvi dizer
que vocês não gostam de períodos.

Periodicamente, no decorrer de uma conversa normal, a minha mãe e eu interrogamo-nos sobre a forma como as mulheres lidavam com a menstruação antes de estarem disponíveis no mercado os mais variados produtos de higiene feminina. Não me perguntem como as conversas vão aí parar. A minha mãe, tendo vivido parte da sua juventude numa diminuta aldeia da Beira Alta, sempre defendeu uma teoria baseada nas suas observações de algumas senhoras da povoação. As suas saias compridas e a falta de roupa interior permitir-lhes-iam não usar qualquer dispositivo absorvente durante aquela altura do mês, e o rasto de sangue que deixavam atrás de si seria provavelmente camuflado pelas ervas e poeira que inundavam os caminhos da aldeia.

Embora esta explicação parecesse bastante plausível, há qualquer coisa na mentalidade feminina do século XXI que se revolta contra tal indignidade. Assim, voltei-me para a Internet – que, até hoje, nunca me desiludiu – e descobri que a minha mãe tinha, em parte, razão (ela vai ficar contente com isso).

Hoje em dia os tampões são mais estéticos e confortáveis.
Às vezes até têm caras e falam connosco.
Antes de chegarmos à parte onde vos falarei das adeptas do fluxo livre, frisarei que, mesmo antes da era cristã, as mulheres de várias culturas tentaram resolver o seu problema periódico com as matérias-primas que tinham mais à mão. No Egipto, usar-se-iam tampões feitos de papiro amolecido; em África, ervas enroladas (ouch); no Japão, talvez polpa de papel; nas ilhas do Pacífico, esponjas marinhas; na Grécia Antiga, bocados de madeira envolvidos em tecido. É também possível que estes dispositivos servissem uma outra função – esta contraceptiva (vendo os materiais usados, parece-me que ficavam bastante desiludidas quando ao fim de 9 meses lhes aparecia uma surpresa em forma de bebé).

Como se não bastasse o inconveniente da menstruação propriamente dita, os homens antigos ainda se lembraram de inventar que as mulheres, enquanto afligidas por esta condição, arruinariam inevitavelmente boa comida e a prosperidade da agricultura. O estudioso romano Plínio apresentou isto como facto científico, e a moda continuou até ao século XIX, altura em que respeitáveis jornais médicos da respeitável Grã-Bretanha ainda afirmavam que mulheres com o período eram cientificamente incapazes de fazer conservas de carne. Entretanto, em França, as mulheres sofrendo esta maldição não podiam trabalhar nas refinarias de açúcar, pois estragariam o produto.

Actualmente já há quem faça a personalização
dos pensos por nós.
Aparentemente, no século XVIII já as mulheres tinham aperfeiçoado a arte de criar produtos menstruais, e as mais cuidadosas (ou as que estavam melhor na vida) faziam pensos de tecido, alguns com enchimento de algodão que podia ser substituído. Estas senhoras também concediam um toque claramente feminino às suas criações, personalizando os seus pensos com bordados. É admirável a sua atenção aos pormenores, mesmo em algo que se ia sujar bastante e não duraria muito.

Entre isto, corpetes, armações de saias e cintos de ligas,
as mulheres passeavam mais arreios do que um cavalo.
Lá para o fim do século XIX resolveu-se finalmente o grande problema destes produtos artesanais, com a invenção do cinto menstrual. Este, equipado com dois ganchos que seguravam o penso no sítio devido, foi a salvação de muitas peças de vestuário vítimas de inundações por má colocação do dispositivo. Foi também por esta altura que começaram a ser vendidos pensos higiénicos descartáveis, que inicialmente não tiveram grande sucesso porque as mulheres sentiam embaraço ao comprá-los.

Enquanto algumas senhoras eram abençoadas com a disponibilidade e os meios para fazerem bonitos pensos higiénicos, outras – a maioria, tudo indica – não usavam nada. Afinal, o uso de roupa interior não se encontrava generalizado e o bloqueio do fluxo menstrual era visto como pouco saudável. Antes que comecem a pensar no inconveniente de tal coisa, é necessário considerar que não havia tantos períodos como hoje em dia. O que entre nós é uma maldição mensal era antigamente uma maldição irregular: a menstruação começava mais tarde e acabava mais cedo; as mulheres passavam grande parte do tempo grávidas e a amamentar; havia muitas mulheres malnutridas e doentes.

Escondam as vossas vergonhas.

O século XX foi propício (finalmente) à emancipação das mulheres e dos seus períodos. Nos anos 20 os pensos higiénicos descartáveis começaram a ter mais saída, e nos anos 50 os tampões comerciais tornaram-se populares. Mesmo assim, estes últimos eram vendidos com uma caixa decorada, presumivelmente para esconder a vergonha que é ter o período e usar tampões. Mais ou menos como hoje em dia se vendem caixas para esconder os maços de tabaco que proclamam aos sete ventos: “Fumar mata.”.

1 comentário:

  1. No Portugal profundo ainda não há muito tempo que se acreditava piamente que as mulheres "nos dias do período" não podiam nem deviam tirar vinho do pipo, não mexer no pote das azeitonas, não fazer bolos, etc., porque o vinho avinagrava, as azeitonas ficavam moles e o bolo ficava resinoso. Também não deviam lavar o cabelo porque o sangue podia subir ao cocuruto e levar à loucura. Tanta ignorância! Tanta superstição! A culpa foi de Aristóteles que viu impureza no sangue feminino expelido... A partir daí, os pensadores homens inventaram uma série de patranhas para convencer as mulheres de que eram inferiores, biológica e intelectualmente, o que abriu caminho a todas as desigualdades sociais, civis e políticas.

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